Encontram-se por acaso, como se os anos não tivessem passado.
Um amontoado de sapatos no canto do quarto, esquecidos do seu par. Caminham juntos, pisam ruas paralelas e partilham o peso dos mesmos corpos, ainda que diferentes. Reconhecem-se pelo couro trespassado pelas unhas, pelas solas ou pelo que resta delas.
Vêm de lugares diferentes e trazem cheiros que não se misturam facilmente. Neles habitam rumores discretos e lembranças, em línguas que o quarto não tem ouvidos para compreender.
Não falam alto.
Partilham o essencial
o que fizeram
e o que
nunca chegaram a fazer.
Estão ali sapatos que atravessaram cidades inteiras e outros que apenas aprenderam a ficar à porta, pacientes. Todos guardam o pó de uma praia antiga, o cheiro da maresia e o calor da idade. Recordam passos apressados, passos mastigados, passos que dançam com muita música.
Agora estão ali, imóveis, encostados à parede, esverdeados, luminosos. Como antigos amigos, já não precisam de provar nada.
Um silêncio confortável.